Entrevista com Carina Hurtado, Advogada e Conselheira Estadual da OAB/RO

23/01/2026

Por Revista Negra


Carina Hurtado é mãe, advogada, fundadora e gestora do escritório Hurtado Advogados Associados, além de conselheira estadual da OAB Rondônia. Mulher preta, acredita que a advocacia deve ser exercida com excelência técnica, mas também com humanidade, escuta ativa e compromisso com a responsabilidade social. 

Quem é a Carina por trás da advogada?

Por trás da advogada existe, antes de tudo, a minha família. Quando o expediente termina e as câmeras se desligam, é para eles que eu volto. É no cuidado, no afeto e na rotina familiar que encontro equilíbrio e força para continuar. A família é meu alicerce e o que me mantém firme todos os dias.

"Mulher, mãe, advogada" — três papéis intensos.

Como você equilibra tudo isso no dia a dia?
Eu aprendi que não existe equilíbrio perfeito, mas existe consciência. A maternidade mudou completamente a forma como eu enxergo o mundo e o trabalho. A dinâmica da minha casa me ensinou a ouvir mais, a respeitar o tempo do outro e a compreender que nem tudo precisa ser resolvido no litígio. Hoje, minha atuação é muito mais voltada para o consenso, para a autocomposição e para uma advocacia verdadeiramente humanizada.

Qual foi o momento em que você pensou:

"é isso, quero advogar e fazer a diferença"?
Dois momentos foram decisivos na minha trajetória. O primeiro foi quando ganhei minha primeira audiência trabalhista, defendendo uma mãe que havia sido dispensada após engravidar. O segundo foi ao atuar em um caso de um cliente amputado. Ali eu entendi que o Direito não seria apenas uma profissão para mim, mas uma ferramenta real de transformação. Foram verdadeiros divisores de águas na minha vida.

Ser mãe transformou sua forma de ver o trabalho?

Em que sentido?
Transformou completamente. A maternidade me ensinou a escutar com mais atenção, a ter empatia e a olhar para as pessoas para além dos processos. Hoje, busco soluções que respeitam as histórias envolvidas, priorizando o diálogo e evitando conflitos desnecessários. A advocacia deixou de ser apenas técnica e passou a ser profundamente humana.

No seu Instagram, você fala sobre vivências reais.

Qual foi a mais marcante que te ensinou algo que o diploma não ensinaria?
Uma das vivências mais marcantes da minha vida foi presenciar um gesto de sororidade que jamais esquecerei. Uma oficial de justiça, que infelizmente já faleceu, estendeu a mão para mim em um momento difícil, oferecendo apoio e até roupas para que eu pudesse tomar posse como advogada. Aquilo me atravessou profundamente. Ali eu compreendi, na prática, o poder da sororidade e do cuidado entre mulheres.

Em uma fase em que eu estava sozinha, com um filho pequeno, encontrei força ao "olhar para o monte" — um símbolo de fé, esperança e resistência. Outro momento transformador foi participar de uma conferência nacional no Rio Grande do Sul, onde ouvi histórias de vida que me tocaram profundamente.

Como é liderar um escritório e, ao mesmo tempo, ocupar um espaço de representatividade dentro da OAB Rondônia?

É desafiador, mas extremamente necessário. Estar nesses espaços significa abrir caminhos e mostrar que mulheres como eu pertencem a eles. Liderar, para mim, não é sobre poder, mas sobre responsabilidade, compromisso coletivo e transformação.

A advocacia ainda é um espaço desafiador para mulheres — especialmente mulheres pretas.

Quais barreiras você mais sente e como costuma superá-las?
O machismo ainda é uma barreira constante. Muitas vezes estou em mesas de reunião compostas majoritariamente por homens e, mesmo sendo a responsável pelo caso, minha fala é ignorada. Superar isso exige resistência diária. Existem dias mais difíceis, mas sigo provando, com trabalho e competência, que eu pertenço a esses espaços.

"Representatividade é mais que presença. É transformar espaços."

— Carina Hurtado

Você recebeu uma homenagem da Assembleia Legislativa por sua atuação.

O que significa, para você, falar sobre a questão racial dentro da advocacia?
Falar sobre a questão racial não é algo distante para mim, é uma vivência cotidiana. Quando eu era vice-presidente da OAB Vilhena tive a oportunidade de compartilhar minhas vivências e desafios, hoje como Conselheira Estadual da OAB/RO uso esse espaço para conscientizar, promover parcerias e dar visibilidade a temas como maternidade solo e desigualdade racial. A homenagem que recebi foi uma validação, algo que me fortaleceu e confirmou que minha atuação gera impacto para além da minha própria história.

Que conselho você daria para outras mulheres pretas que sonham com uma carreira sólida, mas duvidam do próprio lugar?

Não desistam dos seus sonhos. Mesmo quando parecerem estar sozinhas, sigam. Olhem para dentro de si, reconheçam sua força e continuem caminhando. Cada passo dado abre caminho para outras mulheres que virão depois.

E olhando para frente…

Que futuro você deseja construir — para você, para sua filha(o) e para as mulheres que virão depois?
Desejo um futuro em que mulheres pretas não precisem provar o tempo todo que são capazes. Um futuro em que nossos filhos cresçam sabendo que pertencem a todos os espaços. Um futuro de dignidade, justiça e transformação coletiva.


Carina Hurtado é mãe, advogada, fundadora e gestora do escritório Hurtado Advogados Associados, além de conselheira estadual da OAB Rondônia. Mulher preta, acredita que a advocacia deve ser exercida com excelência técnica, mas também com humanidade, escuta ativa e compromisso com a responsabilidade social.